terça-feira, 30 de setembro de 2014

Perdão Cristiane


Hoje li um texto lindo no blog sobre dor. Hoje pensei no discurso bombástico da atriz negra Lupita Nyong'o, vencedora do último oscar na categoria de melhor atriz, em relação a sua beleza. Hoje pensei em escrever, uma vez que eu mesma nunca pensei em acordar com a pele mais clara porque, afinal, eu sou morena né?! E foi nisso que eu cresci acreditando.

Sempre parava na frente do espelho com aqueles cachos penteados a seco (ô dó! rss), amarrava num rabo de cavalo baixo e saía com ele assim, num capacete pseudo liso e uma vassoura acoplada… Eu era, sem dúvida  a menina mais feia da escola, mas pelo menos não era preta.  

Cristiane o nome dela, a “nega fedida” que todos os dias era empurrada para o meio do pátio da escola onde arrancavam seu prendedor de cabelo (ou de identidade, como queiram) e a deixavam desesperada segurando as pontas, alisando o cabelo com as mãos e gritando “Para! Para!”. E em segundos ela estava no meio da roda de meninos... Eram chutes, murros e pontapés que ela levava enquanto o coro musicava xingamentos com palmas. Ela bem dava uns murros também, distribuía uns chutes e xingava de volta. Era marrenta a menina de 11 anos que estudava na minha escola.

Eu gostaria de dizer que defendi a Cristiane, que sentei com ela no recreio, que dei as costas para um monte de meninos e meninas que ridicularizavam ela. Eu gostaria, mas não posso. Confesso que chorei escrevendo esse texto. Que tipo de monstro era eu, na sexta série, que nunca foi capaz sequer de sentir pena do que aquela menina enfrentava todos os dias? Nunca xinguei nem bati, aliás evitava inclusive assistir. Mas a omissão é igual ou pior que os ataques, eles pelo menos se posicionavam. E eu?

Nessas horas x leitorx pode se perguntar: “E onde estava a direção desse colégio?” Pois é... Onde estava? Sendo a referida escola pública um quadrado com as portas das salas em três das paredes e a direção na quarta. O recreio, a gente passava no meio do quadrado, a sala dos professores era ao lado da direção e os gritos eram altos o recreio inteiro. Vez por outra vinha a coordenadora dar uns berros, distribuir umas suspensões, advertências para os meninos que agrediam Cristiane fisicamente, mas só. Cristiane era o motivo de eu chegar em casa todos os dias e agradecer a Deus pela minha pele não ser tão escura quanto a dela.

Nadejda era a menina nova, chegou na sétima série, um corpo esguio, pele igual ou mais escura que a da Cristiane, nariz bem chato e o pouco cabelo, num corte quadrado feito na máquina, bem crespo. Da primeira vez que a vi, tive pena da certeza que ela seria conduzida pelo mesmo rumo da Cristiane. Nadejda era doce, não irritada e grossa como a outra, mas tinha um detalhe que eu ainda não sabia e que viria a fazer toda a diferença: Nadejda era angolana. Seu sotaque, suas histórias e sua leveza com a vida me fizeram pensar que não tinha nada a ver com o fato da Cristiane ser preta, ela era chata e mais feia do que eu, se é que isso era possível. Pelo menos eu me achava legal, inteligente, pelo menos eu tinha amigos, pelo menos eu não era ela. E pela primeira vez eu tive alguma autoestima ao perceber que minha vida podia ser bem pior.

Cristiane carregava na cara preta de 11, 12, 13 anos de idade todo o peso do racismo arraigado da nossa cultura. E ela, no seu início de adolescência, encarava de frente, de cabeça erguida e peitava mesmo, quem fosse! E gritava mesmo e xingava mesmo. Eu a vi chorar uma vez, foi bem pior. A gozação triplicou com as lágrimas da menina sentada no chão segurando os cabelos. Nadejda era recém chegada de um país africano, um país negro, ela tinha a leveza dos inocentes. Mas não sei dizer se é possível se viver mais feliz assim...


Aos 17 anos conheci um menino maravilhoso, Hugo parecia um ursão de pelúcia e me disse que eu tinha um sorriso lindo. Mas ele falou tão entusiasmado e repetiu tantas vezes para mim e para quem mais quisesse ouvir, que eu acreditei. Que outras pessoas acreditaram. Que todo mundo passou a comentar. Foi aí que troquei meu primeiro beijo... E eu, bem contente, tatuei a droga do sorriso na cara. Empunhada da única arma que tinha, comecei a perder a pena de mim mesma, afinal eu podia me esconder atrás daquele sorriso e fingir que era linda.

Pega meus documentos pra ver, isso é desde antes das pessoas saberem que podia: carteira de motorista, de estudante, da ordem dos músicos, passaporte, todas as minhas fotos são sorrindo e rezando pra ninguém descobrir que, atrás daquela armadura de dentes eu era verdade muito feia. Foto séria? De perfil então? NUNCA! Eu tenho mais dentes do que minha boca é capaz de suportar e aos 14 anos a dentista me disse que “esteticamente não funciona”. Só que eu nunca tive cárie, não ia perder quatro dentes a toa, feia eu já estava acostumada a ser.

Hoje eu lembrei do discurso da Lupita sobre se descobrir bonita e pensei na minha vida... Eu que tive que descobrir que sou negra, preta. Porque o desespero pelo embranquecimento é tanto que só ouvia do meu pai que estava “penteadinha” quando o cabelo estava preso, da dentista, que minha dentição protuberante “esteticamente não funciona” e... E a culpa? É de quem afinal? Meu paizinho querido, preto do nariz chato e do cabelo crespo, engraxate e vendedor de bala na infância, morreu dizendo que sofreu racismo talvez uma ou duas vezes na vida. Como se isso fosse possível.

O sistema é tão cruel e velado que a gente é convencido a acreditar que é feix, burrx, fedidx... Nunca que é negrx. Eu sou a menina “bem moreninha”, aquela que já disse “não sou morena, sou negra” e teve que ouvir “você não é negra, você é linda”. Nunca é racismo, afinal no Brasil isso nem existe.
Quando se começa a entender os porquês, queremos encontrar um culpado e é muito fácil entender que a culpa é do sistema, da maneira como a história é contada, pela ótica de quem é contada e sim! Tudo isso é a mais ardente verdade! Mas no fundo, pra mim pouco importa quem inventou a discórdia porque quem vai ter que desinventar somos eu e você, pensando, problematizando, denunciando. Eu sou, e sempre fui, linda. Que a sociedade aprenda a lidar com isso e desate esse e tantos outros nós de mais de 500 anos de idade. Nós pretos estamos de olho.

Hoje, o meu orgulho é sair na foto séria, de perfil, evidenciando todos os traços que mãe África gentilmente me concedeu, empunhando a espada com os dizeres cravados:

“Não sou livre enquanto uma pessoa negra permanecer acorrentada” Audre Lorde

Perdão Cristiane.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Contra o aborto, a favor da descriminalização

Sempre evitei falar desse tema porque é um assunto muito polêmico dentro da minha própria cabeça mas acho que a essas alturas as ideias estão se organizando com calma e posso dizer que hoje sou a favor da descriminalização do aborto. Me explico:

Sou CONTRA o aborto, sempre fui, por achar que é um ser vivo e que isso é uma forma de assassinato. Sempre pensei que descriminalizar faria com que a ideia do aborto se tornasse normal e aumentaria drasticamente o número de mulheres abortando. Hoje penso diferente. Descobri que conheço um bocado de gente que já abortou... quantas mulheres deixaram de abortar simplesmente porque é crime? Não sei, talvez 5, 10% das pensaram em fazer... Agora, quantas mulheres morreram porque é crime? 50, 60%? Não tenho noção desses números, mas tenho certeza que não estou tão errada assim... agora, será que é justo sentencia-las a morte porque são querem ser mães?

Ok, nesse momento já estou ouvindo a galera do "que fechasse as pernas", e entendo o argumento da "consequência de uma escolha", que todas sabiam que era uma possibilidade quando fizeram sexo. (Nem vou entrar no mérito da "punição por fazer sexo" e muito menos no do "mas iuzomi que sempre abortaram quando abandonam a criança e não são punidos?" Estou seguindo um raciocínio bem limitado mesmo). Mas, na boa, sério que ela precisa morrer porque abortou? Simples assim? Comparemos com assassinato então, no Brasil não existe pena de morte nem pra assassino ou estuprador! Ou, que a mulher não morra mas, ficar cheia de sequelas? Ou mesmo que seja a branca, a rica que teve grana pra clínica, que entrou escondida, não ficou internada nem antes nem depois porque, afinal é crime né?! Então entra, faz o que tem que fazer e sai o mais rápido possível antes que dê problema! Não teve nenhum acompanhamento psicológico e vai talvez ficar louca o resto da vida por conta de uma decisão ruim? Sim, ainda acho que é uma decisão ruim, ainda acho que é uma vida tirada etc, etc, etc... mas e aí? É uma vida que dependeria 500% da vida de outra pessoa pelo menos pelos próximos 18 anos, então não pode simplesmente ser considerado assassinato...

Hoje penso que a maioria esmagadora das mulheres que querem abortar, vão abortar, sendo crime ou não. A diferença é só se ela vai morrer e/ou ter traumas físicos e psicológicos pelo resto da vida pelas condições em que esse aborto foi feito. Agora, de repente, legalizando, com um acompanhamento psicológico ajudando a mulher a entender como chegou a aquela decisão e respeitando a vontade dela, seja qual for, de repente formulando um programa de apoio financeiro ou fazendo ajustes no próprio bolsa família para mães solteiras da periferia que querem abortar simplesmente porque não vão ter condições de sustentar a si mesmas e a criança, em fim! Estou jogando ideias sem muita reflexão, o lance é mais que talvez só o fato de dar humanidade a essas mulheres, sou até capaz de acreditar que o índice de aborto diminuía... porque seria uma decisão baseada em reflexão e acompanhamento de profissionais. Conheço casos em que o pai teria criado a criança sozinho mas a mãe decidiu abortar. De repente a “calma”que uma descriminalização bem estruturada traria, possibilitaria que os dois entrassem em um acordo onde a mãe seguisse sua vida e deixasse o pai solteiro ou virasse "mãe quando dá" (não sejamos hipócritas né?! Quantos pais são assim?).


Sim, ainda sou contra o aborto, mas também sou contra fumar, sou contra música arrocha e contra acordar cedo. Nem por isso acho que as pessoas devam ser condenadas a condições tão péssimas de vida. Ah! Também sou cristã e me considero uma pessoa religiosa, inclusive por isso também acredito no livre arbítrio. Tenho problemas com a maioria dos textos sobre legalização do aborto, não compartilho e não me vejo indo a protestos nem segurando faixas com os dizeres “o corpo é meu” ou coisas do tipo. Mas sou mulher, negra e feminista e sei que pra muita gente essa última palavra (feminista), vai desmerecer um bocado meu texto. Essas pessoas eu convido a procurar saber um pouco mais sobre o que é de fato o feminismo, eu mesma já achei que eram mulheres que queriam ser homens rss... e na verdade é muito mais simples, hoje tenho pra mim que é apenas o direito de ser tratada como ser humano. :) 

Mais uma vez: sou contra o aborto, qualquer amiga minha que vier grávida com ideias do tipo, com certeza tentarei dissuadi-la do contrário. Mas o fato é que, no fim das contas, não tenho o direito de escolher por elas. Ponto.

sábado, 2 de agosto de 2014

Porque sentamos como mocinhas: de perna aberta no meio fio ou cruzada e de salto à mesa

O bullying começa quando x médicx atesta: é menina!
"Essa vai dar trabalho!" "É isso aí paizão, pagar os pecados hein?!" "Ixi... se deu mal"

E só continua:
"Você não pode jogar futebol com a gente, você é menina!"
"Assim não, senta que nem mocinha! Isso..."
"Isso é brinquedo de menino! Você tem as suas bonecas"
"Hoje nós vamos bordar ursinhos na toalha! E os meninos? Estão mexendo com uns fios lá, descobrindo como acender uma lâmpada." O.o

Muito cedo na vida eu descobri que queria ser menino. Mas pra mim já tinha dado ruim, já tinha nascido menina e nem nunca tinha ouvido falar de transexualidade.

"Mas ela é menina!" "Cara, ela é mais macho que você e eu juntos!"
"Mas ela vai dar prejuízo no rodízio" "Ela é menina mas come que nem um cara!"
"Ela não vai dar conta de carregar isso" "Você que pensa, você não viu ela e o Marciano semana passada na queda de braço, ficaram lá quase um minuto e ninguém saiu do lugar"

De boné, bermuda e tênis de skatista eu tinha conquistado meu espaço, meu respeito. Menina porque não podia evitar, mas ouvia com frequência "às vezes até me esqueço que você é menina". O que, até chegar a época de namorar, era motivo pra bater no peito de orgulho, mas isso é outra história.

"Prefiro ter amigos homens, mulher é muito complicada"
"Homem quando fica com raiva, fala na sua cara e pronto, mulher fica esperando até explodir por bobagem, não aguento não."
"Eu tenho dois irmãos, não sei lidar com mulher"
"É muita fofoca, prefiro sair com os meninos"

Foram frases que passaram a sair livremente da minha boca uma vez que eu mesma era mulher só pelo azar de ter nascido uma, mas "era quase um cara". É impressionante o sucesso que a cultura machista tem em pregar: mulheres são fracas. Ponto. Cavalheirismos e gentilezas se misturam no imaginário coletivo e de repente todo mundo reclama das feministas. Não aceito cavalheirismos porque sou tão capaz quanto. Aceito gentilezas porque são formas de se importar e demonstrar amor.

"Mulher é ciumenta". "O cara não pode sair pra beber com os amigos que a mulher fica enchendo o saco." "Que delícia de comida! Já pode casar!". "Profissão de mulher é professora, enfermeira, ginecologista". "Mexi mesmo com a mulher de saia curta na rua, o que eu posso fazer? Eu sou homem!" "Nai, vamos ter uma conversa aqui, de homem pra homem".


Mas um dia, o dia chega né?! Nãaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaoooooooooooooooooooo!!!!

"E a verdade vos libertará"

Não sou um menino, não faço e nem nunca fiz as coisas como um menino! Oxe! Dei trabalho para os meus pais tanto quanto meus irmãos. ADORO trabalhar com mulher! Mulher não é ciumenta, pessoas são ciumentas! A mina sai com as amigas e chega tarde e o cara também fica enchendo o saco! Eu posso casar quando eu quiser casar, sabendo cozinhar ou não. Assim como vou ter filho quando e se quiser. Ouvi esses dias que mulher que casa e não quer ser mãe vai perder o marido. Aposto que ele não descobriu isso na hora de trocar as alianças, então vá meu filho, já vai tarde! Profissão de mulher é a que ela quiser que seja. Inclusive mãe e/ou dona de casa. Você mexeu com a mulher de saia curta na rua porque é idiota, só por isso. E a minha conversa é de mulher pra homem ou de mulher pra mulher, se quiser!

Tenho descoberto Lauras, Fernandas, Natálias, Letícias, Lucianas, Thanises, Paulas, Isabelles, Mírians, Ninas, Marianas, Lias, Anas... pessoas lindas, responsáveis. Trabalhar com homem NÃO é melhor que trabalhar com mulher! Nunca foi! É diferente, porque somos diferentes. Mas tenho aprendido que mulheres são melhores para trabalhar por dois motivos principais:
1. A gente precisa se ralar tão mais pra ter as mesmas oportunidades que quando tem está anos luz a frente de vários outros caras. Dois grandes exemplos disso na minha vida são a Paula Zimbres e a Thanise Silva. Duas instrumentistas, musicistas que brigam/conquistam um espaço num universo machista e desproporcional. São respeitadas porque são BOAS. E estão em um nível bem acima de vários outros homens que ocupam os mesmos espaços. O respeito devia ser gratuito, mas como não é, elas dão na sua cara se precisar. 
2. Eu sou mulher. O que não significa que homens não possam ser completamente felizes trabalhando com mulheres também. A gente só tem que dar oportunidades.

Algumas pessoas são difíceis de trabalhar e seriam sendo homens, mulheres, homo, hétero, trans, cis, centauros ou sereias. Simples assim. E tem sido pra mim extremamente libertador o recém adquirido orgulho de dizer:

- Eu sento como uma mocinha. Seja de perna aberta no meio fio ou cruzada e de salto alto à mesa.
- Eu dirijo que nem mulherzinha. Seja fazendo uma baliza perfeita no 4x4 da minha mãe ou apanhando pra dar ré em linha reta.
- Eu falo que nem uma mocinha. Na hora de xingar e de amar.
- Tenho unhas de menina. 5min depois de sair do salão e depois do fim de semana na chácara.
- Não bebo que nem mulherzinha. Simplesmente porque não bebo.
- Choro que nem mulherzinha. De raiva, de dor, de alegria, de saudade... E sim. Eu choro. Pouco, mas não tenho vergonha das minhas lágrimas quando querem cair.
- Sou forte como uma mina.
- Como que nem uma mina.
- Não sou "macha", sou fêmea mesmo.
E pra finalizar: não sou grande nem má, mas sou forte e feminista!

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Vinte e Nove

A algumas semanas atrás conheci um primo numa festa de família. Uma gracinha ele, super divertido e comunicativo. Talvez com seus vinte, vinte e dois anos de idade...

No terceiro dia de festa falávamos sobre matérias da escola que existiam na minha época mas não mais na dele, ele sempre comparava as coisas que eu dizia com as histórias que a mãe dele contava. Depois de algum tempo aquilo passou a me incomodar:

- Quantos anos a sua mãe tem?

Seis anos... a mãe dele é apenas seis anos mais velha que eu. Tenho algumas amigas da idade dela, pessoas que saem comigo e ficam até de madrugada embaixo do prédio conversando e rindo num frio do capeta.

- Quantos anos você tem?

Onze anos. Onze anos mais novo que eu. Me apontou a mãe sentada em uma mesa perto de onde conversávamos. Bonita, jovem, bem humorada ela dava risada de algo no momento em que a fotografei com os olhos. Seis anos... o que foi que ela fez com a vida dela? O que foi que eu fiz com a minha?

Se eu quiser ter um filho no fim da adolescência não posso. Se ela quiser não ter, também não pode. Eu não posso escolher ser bailarina profissional ou jogadora de futebol. Ela não pode escolher viajar o mundo antes dos 30. Eu não posso escolher casar aos 20. Podíamos. Mas não podemos.

Faz cinco anos que fui visitar uma amiga em Vila Velha, Espírito Santo. Eu não estava bem e esperava que ela pudesse me dar ao menos parte do alento que me fornecia quando morávamos juntas nos EUA. No voo conheci Kelly e Ivone. Kelly, na janela, decidiu parar de ver sua vida passar através dela e, aos trinta e seis, finalmente protagonizar seus dias. Ivone, no corredor, contava histórias de como conhece cada cantinho dele aos cinquenta. Eu, no meio, pensava nas minhas janelas e corredores, hoje penso que tanto ficou pra trás e no tanto que ainda há  por vir...

Aos vinte e nove tenho orgulho de dizer: Vinte E Nove. Tenho orgulho dos meus feitos e dos meus sonhos, do lugar onde estou. Aos vinte e nove penso que se vivo assim, é porque escolhi assim, não por qualquer outro motivo. Penso que se não sou casada, se não tenho filhos, é porque quando surgiu a oportunidade não achei que fosse o momento. Continuo não achando. Se não tenho um emprego fixo é porque escolhi uma profissão instável e posso dizer: AMO o que faço. Se moro na casa da minha mãe, se meu celular é um lixo e se não tenho um tablet, é porque viajo tanto (e ela também), que acho muito mais jogo não perder oportunidades do que pagar aluguel pra curtir tão pouco minha privacidade. Às vezes mudo de ideia, e mudar de ideia também faz parte. Mas por enquanto quando lembro do tanto de lugar que ainda não conheço, passa! Não, não sou adolescente. sou alguém que fez escolhas diferentes da maioria e que não se arrepende de nada que já me tenha feito sorrir!

Semana que vem estou indo fazer mochilão no leste europeu com meus três irmãos porque escolhemos assim.

"Aos 29 com o retorno de Saturno decidi começar a viver!"

sexta-feira, 11 de julho de 2014

FAC: uma reflexão, uma sugestão e um apelo

Tenho estado tão encucada com esse tópico que achei digno até criar um novo blog. Um pra falar de coisas importantes. Mesmo que eu tenha o alcance de umas poucas pessoas, ter essa galera refletindo comigo e buscando meios de fazer mudanças, além de não ter meus textos se perdendo no facebook, é bom o suficiente. :)

Pois bem, FAC é a sigla para Fundo de Apoio a Cultura, um programa do Governo do Distrito Federal que apoia trabalhos artísticos.

Eu escrevo projetos para o FAC, pessoas me pagam pra escrever algo que possa convencer pareceristas que o trabalho delas precisa da ajuda desse fundo. Eu gosto de escrever projetos, é uma maneira linda de conhecer o trabalho feito na cidade, de me sentir contribuindo para que os artistas daqui possam alçar longos e bonitos voos e ainda ganhar uma grana.

Pois bem, nesse último edital fui contratada por um artista de nome, que tem quase o mesmo tempo de arte que eu tenho de vida, e confesso que fiquei com medinho. E foi por medinho que compareci a uma palestra do FAC. Essa palestra me esclareceu um bocado de coisas, mas não pelos motivos óbvios. Me explico:

1. Tinha um senhor sentado ao meu lado, artista plástico se não me engano. Um senhor que não deve ter um terço da minha escolaridade e do meu entendimento dos caminhos do FAC. Ele se vestia de maneira bem simples. Se a gente for colocar a arte na mesa, a experiência e o trato dele devem me dar uma sova daquelas de cair de joelho e pedir pra parar. Mas quem aprova projeto pra ter ajuda do governo é a classe média que tem dinheiro para contratar alguém para escrever seus projetos ou estudo secular pra dar conta das planilhas e orçamentos.

2. Dependendo da região onde o proponente do projeto mora, ele recebe uma pontuação extra no projeto. Se ele vai trabalhar em Regiões Administrativas de baixa renda isso também conta pontos. A quantidade de gente sentada no ar condicionado do Museu da República reclamando da "injustiça" que essa medida demonstrava era tão absurda que meu estômago embrulhou. ^^ Absurdo é você sair daqui, pegar seu carro e gastar R$100 num bar e reclamar do incentivo que o governo dá para levar cultura a locais de baixa renda. Isso é absurdo. Comecemos a abrir mão das nossas posições de privilégio (eu super inclusa).

3. Fiz uma pergunta para o palestrante, disse que tive um problema na execução de um projeto, liguei na Secretaria de Cultura e recebi uma informação bastante coerente, mas equivocada. O que fazer? O palestrante me disse que eu não posso "provar" que a Secretaria de Cultura errou. Oi? Eu não quero provar nada! Quero consertar o problema. Então fui orientada a escrever um email para poder ser respaldada caso recebesse nova informação errada. Escrevi o email, recebi a resposta "seu problema é muito complexo, marque uma reunião". Liguei para marcar a reunião, o atendente leu meu email, me retornou e disse não ter necessidade de uma reunião, com toda a paciência do mundo me explicou um monte de coisas, todos os caminhos que deveria tomar, etc, etc, etc. Por telefone.

Saí de lá e ainda demorou pra ficha cair em outros quesitos... Eu sou macaca velha de FAC, já aprovei um bocado de coisa e ainda caio nos melindres do processo. Recebi um convite incrível para fazer uma viagem, como cantora, o maior e mais importante que já tinha recebido. Montei uma equipe maravilhosa, fiz um intercâmbio para levar a dança e escrevi um projeto. Eu, que, modéstia a parte, tenho a manha do "mérito cultural" inscrevi um projeto para o edital de passagens.

Ligamos várias vezes, mandamos email, nada! Um dia o proponente me liga dizendo que o projeto foi indeferido. Fui ver o motivo: faltava comprovante de residência e eles não aceitam que se acrescente documentação. Poxa, como fui me esquecer disso? Não, péra! Tinha uma lista de documentos a serem anexados no formulário de inscrição. Eu revisei a lista 1000 vezes, fui conferir e, de fato não estava lá. Ainda olhei no edital pra ver se pedia, não, não pedia. Mas o e-mail do proponente estava errado no formulário (não importa quantas vezes eu mesma liguei, ou ele ligou e ninguém sabia responder nada, a falha é 100% nossa) e o prazo recursal passou. Eu fingi que não vi o prazo e fui na Secretaria de Cultura, fui atendida por dois príncipes amarrados pelo sistema. Um deles fez bem umas 15 viagens para falar com o chefe e ver o que poderia ser feito. Eles me disseram que no Decreto do FAC dizia que precisava de comprovante de residência e que quem fez a lista de documentos do formulário se enganou, mas que pra eles aquilo não era documento. Isso sem falar que pra poder inscrever um projeto o proponente tem que, necessariamente, ter um cadastro com um comprovante de residência anexado. Até chorar eu chorei de frustração porque não estava acreditando que ia perder aquela chance por que não li a lei Maria da Penha na íntegra.

Pois bem, eles pedem 45 dias para poder analisar o projeto. No edital diz "45 dias da data da partida OU da data do evento". Levando em consideração que o edital é para eventos fora do DF, é óbvio que a data da partida necessariamente precede a do evento. Cancelei um bocado de aulas e entreguei o projeto no dia 45 antes da data do evento, coloquei meu email dessa vez! 3 dias depois recebo o comunicado que meu projeto foi indeferido porque era 43 dias antes da partida (sendo que apontei no corpo do projeto o OU do edital) e porque em um dos orçamentos que eu entreguei (que estava assinado, carimbado, com telefone, endereço, nome do atendente etc, etc, etc) faltava o número do CNPJ da empresa. Sabe o que me disseram? Que eu deveria ter dito que a data da partida era a mesma data do evento. Quando a gente tem 28horas de voo e 5horas de fuso horário pra frente isso é inclusive possível, mas quem se importa, pelo menos não ia contra o edital! Com umas duas aulas de interpretação de texto o outro também não ia... Mais uma vez: isso EU que sou macaca velha de escrever projeto.

Agora, todos esses dados para uma simples reflexão: o senhorzinho que estava sentado do meu lado NUNCA vai ter a mínima chance de avançar seu trabalho com a ajuda do governo. A maioria dos projetos que eu escrevo, escrevo para pessoas que em 3, 4, 5 anos que seja conseguiriam juntar dinheiro para gravar um CD ou fazer uma viagem. Aquele senhorzinho demoraria o que? 10, 15 anos? O FAC precisa sim existir pra mim, pra eu não ter que esperar 5 anos cada vez que aparecer uma oportunidade. Mas muito mais que isso, deveria existir para o senhorzinho artista plástico ter uma chance. O Ministério da Cultura, que atende muito mais gente, permite a entrega de documentos faltantes, porque não o FAC? Sem falar na minúcia da prestação de contas... se vira mas coloca no orçamento um contador!

Sugestão:
1. Tem tanta gente naquela Secretaria de Cultura! Não existem os "promotores públicos" pra quem não tem dinheiro pra pagar advogado? Por que não "produtores públicos" pra escrever projeto, conferir documentação antes de entregar? Será que não tem como fazer umas alterações de função? Essa sugestão deve ecoar por várias bocas para que possa ser ouvida.

Sei que esse apelo pode acabar com uma das minhas fontes de renda, mas, né?! Trabalhando em se desfazer de posições de privilégio:

POR QUE NÃO TORNAR O DINHEIRO PÚBLICO ACESSÍVEL  A QUEM MAIS PRECISA DELE?