domingo, 4 de junho de 2017

Respeitar a virgem tal e qual a puta

No episódio especial de Natal do Sense 8 (não estou sabendo lidar com o cancelamento da série), em conversa com o marido, a indiana Kala diz que ainda não fizeram sexo. No meio do tormento de saber que ele conversou sobre isso com sua mãe, o ator mexicano Lito e seu namorado Hernando estão no carro na porta da casa dos dois vendo o muro escrito "viado".

Pra quem não sabe o que é Sense 8, são oito pessoas conectadas mentalmente, ou seja, o que Lito vê e sente, Kala também presencia. Eles são uma pessoa só. Então quando Kala vê a parede pixada, invés de "viado" ela lê "virgem". E é também por isso que acredito em não se colocar no lugar da pessoa, isso é impossível. Mas em ouvir e respeitar. "Virgem" soa para Kala como "Viado" para Lito.

A algum tempo atrás em um grupo feminino de whats app surgiu o assunto sexualidade. Na época devíamos ser em torno de 20 mulheres no grupo. Quando percebi, várias confissões já haviam sido feitas, inclusive em relação a idade da primeira transa: 13, 14, 15 e ninguém se assustava ou comentava sobre a pouca idade de algumas de nós, afinal estávamos em um grupo seguro e acolhedor, um grupo sem julgamentos. Até que uma delas disse ter perdido a virgindade aos 23 anos e de repente pessoas que estavam mais preocupadas em falar das suas histórias interrogavam a "atrasada", a "inocente", a "santa", a "virgem". Como se ela não tivesse direito sobre o próprio corpo aos 23 como tantas outras tiveram aos 13. Ela não era gorda, nem "feia", nem preta, nem lésbica (a alguns anos atrás, a abertura social para a homossexualidade não era como é hoje, então poderia ter sido sim um motivo para ela ter "demorado"). Se ela passou nos "testes" pra conseguir um boy, por que então?

Isso me irritou, me irrita muito. Como vejo feministas maravilhosas defendendo a liberdade dos seus mamilos, a liberdade de sair e fazer sexo com quem quiser, onde quiser, com quantos quiser porque o "corpo é meu". Mas e o direito de não fazer? Saiba amiguinha, que o seu direito é exatamente igual ao dela. O patriarcado nos impõe tantos limites e regras que muitas vezes acreditamos que ser livre é ser contrária, mas esquecemos que somos seres altamente complexos. Gosto muito de ver isso em outra série da Netflix, "Dear White People". Porque mostra pessoas negras revolucionárias que querem esfregar na cara do mundo o racismo, mas mostra também pessoas negras de cabelos alisados que querem apenas sobreviver, passar pelo mundo sem tanta dor e tanta luta diária. E não é um direito das duas ser assim? Sem #RacistasNãoPassarão três vezes por dia, só existir...

Vi uma vez uma matéria de mulheres que se intitulavam feministas e cobriam a cabeça. Elas diziam que para elas era uma maneira de não aceitar os padrões sociais que objetificam nossos corpos. Você pode sair de topless e querer a mesma coisa. Pode até achar que seu modo de reagir é melhor que o dela. Mas vamos combinar que socialmente nenhum dos dois está sendo aceito, então qual a receitinha mágica? Pois é, não dá pra saber!

Uma amiga incrível tem 5 crianças, a mais velha deve ter 9 anos. O marido trabalha fora e ela não. Pra gringo ver, a profissão dela às vezes não passa de "prenha reprodutora" que faz todas as vontades do marido e acaba com a própria vida trocando fraldas. Passei alguns dias na casa convivendo com a família e posso testemunhar: Chloe ainda estava na barriga, mas as outras eram educadas, carinhosas, gentis, receptivas. O marido era pai, não só reprodutor. As crianças conhecem ele e ele está lá para elas. É uma casa super alegre, cheia de ajuda e ensinamentos. Depois da janta as crianças mais velhas recolheram o prato das mais novas e eu fiquei absolutamente apaixonada. Eu, que prezo tanto minha liberdade descobri que a liberdade dela é ter uma família. Sou livre quando posso dormir até tarde. Ela é livre quando decide fazer um piquenique divertido de última hora no quintal de casa. Eu sou uma, eles são 7. Somos livres e prisioneiras ao mesmo tempo, cada uma das suas escolhas e quem tem o direito de julgar alguma de nós?

Para a balança se equilibrar muitas vezes ela pende para o outro lado. Acho que não precisamos deixar isso acontecer assim. Ontem a puta era apedrejada na rua. Hoje riem da cara da virgem, debocham e interrogam. A puta não deixou de apanhar na rua tá?! Provavelmente apanha menos, mas colocar a virgem no lugar dela também não está certo. O feminismo não está aí para escolher quais mulheres vão ser livres, queremos todas, cada uma a sua maneira. E liberdade é poder escolher seja lá o que for. Já temos julgamentos demais no mundo para ainda ser crucificadas pelas pessoas que nos querem bem. Passei muitos anos aporrinhando a minha prima para virar professora de faculdade, escrever um livro, sei lá. Ela é uma gênia da pedagogia. Mas tudo o que ela fez foi para poder criar melhor suas/ seus filhis. Quem sou eu pra dizer que ela está errada? Gostaria que o mundo aprendesse com ela, mas ela tem o direito de levar aquilo apenas para a casa dela. E viva o respeito e a diversidade <3

Lira, junho/17

domingo, 21 de maio de 2017

Porque nego é otário e você é racista

Entre outubro de 2014 e março de 2015 fiz uma pesquisa de campo pra provar pra mim mesma que "neguim" não é sinônimo de "pessoal", "galera", "gente". É simples e descaradamente mais uma maneira de demonstrar racismo. Com o passar do tempo e das discussões que frequentemente me encontro, decido publicar meus resultados.

Pois bem, a pesquisa consistiu em anotar 100 ocorrências que ouvi em situações cotidianas, fossem de pessoas conhecidas ou não:

63 ocorrências negativas;
34 ocorrências neutras;
3 ocorrências positivas.

"Nego não sabe votar", "Na hora do vamo ver neguim some", "Nego quebra as bikes do Itaú", "Nego é bom pra criticar", "Fala de um jeito neguim briga, fala de outro neguim briga" e "Nego é burro" são apenas alguns dos exemplos que anotei durante minha pesquisa. Diferente da desculpa que a maioria das pessoas tem quando confrontadas no uso dessas expressões, elas não são utilizadas para definir um grupo de pessoas qualquer, mas sim para definir um grupo de pessoas a quem se quer atacar. E quem melhor que pessoas negras, não?

Nos Estados Unidos isso é muito claro quando vemos o uso da palavra "nigger", tão presente em filmes, séries e músicas. Assim, sabemos que é uma expressão utilizada entre pessoas negras e terminantemente proibida para pessoas brancas. O episódio 5 da série da Netflix "Dear White People" (Cara gente branca) mostra um pouco dessa relação. O que a série não diz é que historicamente "nigger" é uma expressão pejorativa como o nosso "neguim" que cada vez mais foi se tornando depreciativa até o ponto de se tornar uma grande ofensa. Donis de escravis, policiais, e todo jeito de gente branca com poder sobre pessoas negras utilizavam essa expressão para humilha-las. Hoje em dia negris utilizam a palavra entre elis mesmis, entre amiguis, como sinal de resistência. Aí, para is "humanistas" de plantão eu digo: Os EUA estão ANOOOOS LUZ na nossa frente na discussão racial, falem o que quiser sobre sua suposta segregação. Porque o Brasil é mestiço né?! Antes um inimigo exposto e de peito aberto do que o nosso silêncio tão velado, mutante e travestido de meritocracia em tantos níveis que a gente tende a acreditar que não existe. Nenhum doente se cura antes de perceber e admitir sua condição, para só então procurar um hospital. O Brasil é um doente terminal em negação. Terminal porque abusa, explora, nega trabalho, estupra e mata. Sim, mata dezenas de pessoas negras, apenas por serem negras, todos os dias.

Agora, um fator super interessante que encontrei durante a pesquisa foi que não anotei só a fala racista como is falantes racistas:

77 pessoas não negras
23 pessoas negras.

É fácil dizer que "é só uma expressão" quando não se trata de você, quando não é a sua história, a sua família, a sua pele quem define se algo é ruim ou não. Fiz a experiência de postar algumas vezes no facebook "branquim" dentro de um contexto qualquer imitando posts feitos por pessoas brancas que utilizaram "neguim". Surpresa não tive, mas talvez você se surpreenda ao saber que em NENHUMA das postagens com "neguim" alguém se manifestou em relação a questão racial e em TODAS as minhas postagens pelo menos uma pessoa comentou algo como "não é só branquim, neguim também", fora as várias mensagens privadas que recebi de pessoas brancas condenando meu "racismo reverso", mesmo que por vezes não viesse com esse nome. Dois pesos duas medidas.

Ainda, uma última observação sobre a pesquisa, das 23 pessoas negras citadas, TODAS são de classe média pra cima. Várias delas inclusive militantes do movimento negro. Não cheguei a fazer um levantamento de como essas pessoas se relacionam com a "expressão" mas das 3 ocorrências boas, 2 foram de pessoas negras. Me pergunto se não é mais uma forma de embranquecer. Como nossos cabelos alisados, nossos narizes de plástica, nossas maquiagens tons mais claros. Como nossos homens de cabeça raspada. Não é nenhum mistério que negris classe média são rodeados de gente branca por todos os lados em todos os contextos sociais, então sim, constantemente me pergunto se não é também uma maneira de se "misturar", como se fosse possível, como se a branquitude não tivesse sempre inventado e continuasse bolando maneiras de nos fazer sentir não merecedoris do que "é dela".

Um dia me encontrou, num restaurante chiquezinho, um homem negro da minha idade, o que significa que presenciou tanto quanto eu as mudanças nos últimos anos de Brasil. Ele se aproximou da minha mesa, me pediu licença e disse o quanto estava feliz de me ver ali. "Esses espaços também são nossos e me alegro cada vez que vejo que estamos ocupando. Ainda somos poucos mas resistimos."

Minha militância é para empoderar pessoas negras, mulheres. Por ser classe média, me encontro constantemente servindo uma função pedagógica em relação as maiorias brancas que me cercam, mas não devo explicações. A luta racial é uma luta de negris e não negris. Negris ocupando cada vez mais e não negris facilitando essa ocupação, reconhecendo privilégios, protagonismos e lugares de fala. Eu quero viver em um mundo onde a pessoa que bate não fique "ofendida" com os gritos da que apanha. Mas que largue o chicote, se envergonhe profundamente, sofra pelo seu erro e nunca mais repita. Porque ter que apanhar e explicar educadamente por que está errado bater ni coleguinha é pra mandar enforcar em praça pública! Que possamos ser humildes e nos reconhecer frutos de uma sociedade que nos seleciona e classifica por gênero, raça, orientação sexual, peso, funcionabilidade de corpos, dinheiro e tantos outros fatores. Somos humanos mas antes de começar a pregar nossas semelhanças, precisamos urgentemente apontar, reconhecer e respeitar nossas diferenças.

Lira
maio/17

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Sozinha

Depois de tanto tempo decidi reativar o blog, de uns anos pra cá aprendi a compor e a novidade das notas ofuscou o amor pelas palavras, minhas primeiras namoradas. Volto cabisbaixa, envergonhada, sem a certeza do perdão pelo meu abandono...

Eu sempre fui sozinha, tanto que temo já não saber ser de outro jeito.
4mil amigos na internet. Talvez uns 3 na vida real. Invejo quem não tem facebook, trocaria postagens por frases ditas na mesa de bar.

Passei o primeiro dia do ano e o dia das mães sozinha, torcendo pra me levar com você.
Passei minhas últimas doenças sozinha também, temendo ser encontrada no chão, vomitada talvez, desmaiada a sabe-se lá quanto tempo...

Escolhi a liberdade e a prisão de morar só. Escolhi um relacionamento perfeito quando está tudo bem, mas que evito quando não estou bem. Não posso ficar doente e abandonada. Sozinha eu sei ser.

Queria visitar pessoas, trocar segredos, falar da vida, mas não consigo. Eu sou trabalho. Minhas amizades são as ideias que troco com músicos nos intervalos dos shows, são as piadas que ouço nos ensaios.

Saio sozinha, almoço sozinha, danço sozinha, cozinho sozinha. Ou isso ou nada.
Eu sempre fui sozinha, tanto que já não sei ser de outro jeito.