segunda-feira, 28 de julho de 2014

Vinte e Nove

A algumas semanas atrás conheci um primo numa festa de família. Uma gracinha ele, super divertido e comunicativo. Talvez com seus vinte, vinte e dois anos de idade...

No terceiro dia de festa falávamos sobre matérias da escola que existiam na minha época mas não mais na dele, ele sempre comparava as coisas que eu dizia com as histórias que a mãe dele contava. Depois de algum tempo aquilo passou a me incomodar:

- Quantos anos a sua mãe tem?

Seis anos... a mãe dele é apenas seis anos mais velha que eu. Tenho algumas amigas da idade dela, pessoas que saem comigo e ficam até de madrugada embaixo do prédio conversando e rindo num frio do capeta.

- Quantos anos você tem?

Onze anos. Onze anos mais novo que eu. Me apontou a mãe sentada em uma mesa perto de onde conversávamos. Bonita, jovem, bem humorada ela dava risada de algo no momento em que a fotografei com os olhos. Seis anos... o que foi que ela fez com a vida dela? O que foi que eu fiz com a minha?

Se eu quiser ter um filho no fim da adolescência não posso. Se ela quiser não ter, também não pode. Eu não posso escolher ser bailarina profissional ou jogadora de futebol. Ela não pode escolher viajar o mundo antes dos 30. Eu não posso escolher casar aos 20. Podíamos. Mas não podemos.

Faz cinco anos que fui visitar uma amiga em Vila Velha, Espírito Santo. Eu não estava bem e esperava que ela pudesse me dar ao menos parte do alento que me fornecia quando morávamos juntas nos EUA. No voo conheci Kelly e Ivone. Kelly, na janela, decidiu parar de ver sua vida passar através dela e, aos trinta e seis, finalmente protagonizar seus dias. Ivone, no corredor, contava histórias de como conhece cada cantinho dele aos cinquenta. Eu, no meio, pensava nas minhas janelas e corredores, hoje penso que tanto ficou pra trás e no tanto que ainda há  por vir...

Aos vinte e nove tenho orgulho de dizer: Vinte E Nove. Tenho orgulho dos meus feitos e dos meus sonhos, do lugar onde estou. Aos vinte e nove penso que se vivo assim, é porque escolhi assim, não por qualquer outro motivo. Penso que se não sou casada, se não tenho filhos, é porque quando surgiu a oportunidade não achei que fosse o momento. Continuo não achando. Se não tenho um emprego fixo é porque escolhi uma profissão instável e posso dizer: AMO o que faço. Se moro na casa da minha mãe, se meu celular é um lixo e se não tenho um tablet, é porque viajo tanto (e ela também), que acho muito mais jogo não perder oportunidades do que pagar aluguel pra curtir tão pouco minha privacidade. Às vezes mudo de ideia, e mudar de ideia também faz parte. Mas por enquanto quando lembro do tanto de lugar que ainda não conheço, passa! Não, não sou adolescente. sou alguém que fez escolhas diferentes da maioria e que não se arrepende de nada que já me tenha feito sorrir!

Semana que vem estou indo fazer mochilão no leste europeu com meus três irmãos porque escolhemos assim.

"Aos 29 com o retorno de Saturno decidi começar a viver!"

sexta-feira, 11 de julho de 2014

FAC: uma reflexão, uma sugestão e um apelo

Tenho estado tão encucada com esse tópico que achei digno até criar um novo blog. Um pra falar de coisas importantes. Mesmo que eu tenha o alcance de umas poucas pessoas, ter essa galera refletindo comigo e buscando meios de fazer mudanças, além de não ter meus textos se perdendo no facebook, é bom o suficiente. :)

Pois bem, FAC é a sigla para Fundo de Apoio a Cultura, um programa do Governo do Distrito Federal que apoia trabalhos artísticos.

Eu escrevo projetos para o FAC, pessoas me pagam pra escrever algo que possa convencer pareceristas que o trabalho delas precisa da ajuda desse fundo. Eu gosto de escrever projetos, é uma maneira linda de conhecer o trabalho feito na cidade, de me sentir contribuindo para que os artistas daqui possam alçar longos e bonitos voos e ainda ganhar uma grana.

Pois bem, nesse último edital fui contratada por um artista de nome, que tem quase o mesmo tempo de arte que eu tenho de vida, e confesso que fiquei com medinho. E foi por medinho que compareci a uma palestra do FAC. Essa palestra me esclareceu um bocado de coisas, mas não pelos motivos óbvios. Me explico:

1. Tinha um senhor sentado ao meu lado, artista plástico se não me engano. Um senhor que não deve ter um terço da minha escolaridade e do meu entendimento dos caminhos do FAC. Ele se vestia de maneira bem simples. Se a gente for colocar a arte na mesa, a experiência e o trato dele devem me dar uma sova daquelas de cair de joelho e pedir pra parar. Mas quem aprova projeto pra ter ajuda do governo é a classe média que tem dinheiro para contratar alguém para escrever seus projetos ou estudo secular pra dar conta das planilhas e orçamentos.

2. Dependendo da região onde o proponente do projeto mora, ele recebe uma pontuação extra no projeto. Se ele vai trabalhar em Regiões Administrativas de baixa renda isso também conta pontos. A quantidade de gente sentada no ar condicionado do Museu da República reclamando da "injustiça" que essa medida demonstrava era tão absurda que meu estômago embrulhou. ^^ Absurdo é você sair daqui, pegar seu carro e gastar R$100 num bar e reclamar do incentivo que o governo dá para levar cultura a locais de baixa renda. Isso é absurdo. Comecemos a abrir mão das nossas posições de privilégio (eu super inclusa).

3. Fiz uma pergunta para o palestrante, disse que tive um problema na execução de um projeto, liguei na Secretaria de Cultura e recebi uma informação bastante coerente, mas equivocada. O que fazer? O palestrante me disse que eu não posso "provar" que a Secretaria de Cultura errou. Oi? Eu não quero provar nada! Quero consertar o problema. Então fui orientada a escrever um email para poder ser respaldada caso recebesse nova informação errada. Escrevi o email, recebi a resposta "seu problema é muito complexo, marque uma reunião". Liguei para marcar a reunião, o atendente leu meu email, me retornou e disse não ter necessidade de uma reunião, com toda a paciência do mundo me explicou um monte de coisas, todos os caminhos que deveria tomar, etc, etc, etc. Por telefone.

Saí de lá e ainda demorou pra ficha cair em outros quesitos... Eu sou macaca velha de FAC, já aprovei um bocado de coisa e ainda caio nos melindres do processo. Recebi um convite incrível para fazer uma viagem, como cantora, o maior e mais importante que já tinha recebido. Montei uma equipe maravilhosa, fiz um intercâmbio para levar a dança e escrevi um projeto. Eu, que, modéstia a parte, tenho a manha do "mérito cultural" inscrevi um projeto para o edital de passagens.

Ligamos várias vezes, mandamos email, nada! Um dia o proponente me liga dizendo que o projeto foi indeferido. Fui ver o motivo: faltava comprovante de residência e eles não aceitam que se acrescente documentação. Poxa, como fui me esquecer disso? Não, péra! Tinha uma lista de documentos a serem anexados no formulário de inscrição. Eu revisei a lista 1000 vezes, fui conferir e, de fato não estava lá. Ainda olhei no edital pra ver se pedia, não, não pedia. Mas o e-mail do proponente estava errado no formulário (não importa quantas vezes eu mesma liguei, ou ele ligou e ninguém sabia responder nada, a falha é 100% nossa) e o prazo recursal passou. Eu fingi que não vi o prazo e fui na Secretaria de Cultura, fui atendida por dois príncipes amarrados pelo sistema. Um deles fez bem umas 15 viagens para falar com o chefe e ver o que poderia ser feito. Eles me disseram que no Decreto do FAC dizia que precisava de comprovante de residência e que quem fez a lista de documentos do formulário se enganou, mas que pra eles aquilo não era documento. Isso sem falar que pra poder inscrever um projeto o proponente tem que, necessariamente, ter um cadastro com um comprovante de residência anexado. Até chorar eu chorei de frustração porque não estava acreditando que ia perder aquela chance por que não li a lei Maria da Penha na íntegra.

Pois bem, eles pedem 45 dias para poder analisar o projeto. No edital diz "45 dias da data da partida OU da data do evento". Levando em consideração que o edital é para eventos fora do DF, é óbvio que a data da partida necessariamente precede a do evento. Cancelei um bocado de aulas e entreguei o projeto no dia 45 antes da data do evento, coloquei meu email dessa vez! 3 dias depois recebo o comunicado que meu projeto foi indeferido porque era 43 dias antes da partida (sendo que apontei no corpo do projeto o OU do edital) e porque em um dos orçamentos que eu entreguei (que estava assinado, carimbado, com telefone, endereço, nome do atendente etc, etc, etc) faltava o número do CNPJ da empresa. Sabe o que me disseram? Que eu deveria ter dito que a data da partida era a mesma data do evento. Quando a gente tem 28horas de voo e 5horas de fuso horário pra frente isso é inclusive possível, mas quem se importa, pelo menos não ia contra o edital! Com umas duas aulas de interpretação de texto o outro também não ia... Mais uma vez: isso EU que sou macaca velha de escrever projeto.

Agora, todos esses dados para uma simples reflexão: o senhorzinho que estava sentado do meu lado NUNCA vai ter a mínima chance de avançar seu trabalho com a ajuda do governo. A maioria dos projetos que eu escrevo, escrevo para pessoas que em 3, 4, 5 anos que seja conseguiriam juntar dinheiro para gravar um CD ou fazer uma viagem. Aquele senhorzinho demoraria o que? 10, 15 anos? O FAC precisa sim existir pra mim, pra eu não ter que esperar 5 anos cada vez que aparecer uma oportunidade. Mas muito mais que isso, deveria existir para o senhorzinho artista plástico ter uma chance. O Ministério da Cultura, que atende muito mais gente, permite a entrega de documentos faltantes, porque não o FAC? Sem falar na minúcia da prestação de contas... se vira mas coloca no orçamento um contador!

Sugestão:
1. Tem tanta gente naquela Secretaria de Cultura! Não existem os "promotores públicos" pra quem não tem dinheiro pra pagar advogado? Por que não "produtores públicos" pra escrever projeto, conferir documentação antes de entregar? Será que não tem como fazer umas alterações de função? Essa sugestão deve ecoar por várias bocas para que possa ser ouvida.

Sei que esse apelo pode acabar com uma das minhas fontes de renda, mas, né?! Trabalhando em se desfazer de posições de privilégio:

POR QUE NÃO TORNAR O DINHEIRO PÚBLICO ACESSÍVEL  A QUEM MAIS PRECISA DELE?