domingo, 13 de setembro de 2020

Tutorial de como tratar uma faxineira

 Uma vez uma amiga me disse que não contratava faxineira pq era contra esse tipo de trabalho análogo à escravidão. Pedi licença pra abrir meu coração e ela, muito atenciosa, deixou "isso é coisa de mina branca mimada pseudo esquerda vegana gratiluz. A pessoa já é faxineira, é isso que ela faz! Não contratar é n promover uma oportunidade de trabalho". Sorte que a minha amiga é uma fofa e entendeu exatamente o que eu quis dizer. Quer contribuir para as faxineiras mudarem de vida? Vai aí um tutorial:

1. Contrata uma faxineira e paga bem melhor do que ela cobra. JAMAIS reclame do valor, se n estiver dentro do seu orçamento, não contrate. Vc faz isso com advogado, n faz?
2. Dê uma lista do que você quer antes dela chegar na sua casa e, se possível, nem esteja lá durante a faxina. Ficar atrás da pessoa reclamando do q ela está fazendo ou aumentando a lista é cuzetagem. Esqueceu alguma coisa? Deixa pra próxima.
3. Essa história de "vou contratar uma faxineira branca pra n ser racista" de cu, é rola. A única coisa q vc vai conseguir com isso é negar mais uma oportunidade para uma mulher negra.
4. Eu tenho ÓDIOOOOO de gente que fala em reunião de família, na festinha... "vou dispensar pq minha faxineira é péssima hauahu" e isso é SIM uma indireta, pena que tem vários endereços. Não é engraçado humilhar ngm, especialmente se a pessoa trabalha no seu lar. Isso volta! (sim, isso é uma praga q tô rogando)
5. Aceite a possibilidade da sua casa estar tão imunda que não dá pra faxinar num dia só. PAGUE a segunda diária (mane, já vi a faxineira desesperada oferecer voltar de graça, e a pessoa aceitar. Velho, se joga da ponte.)
6. A faxineira quebra suas coisas pq ela limpa elas, diferente de vc que só deixa poeira juntar. Se algo é precioso demais pra quebrar, guarda em um armário q tá fora da lista, ou deixa um bilhete (não precisa limpar aqui). Pq esperar q ela lembre de tudo é foda tbm.
7. Você acha que ser faxineira "é uma profissão como qqr outra"? Não é! Mas eu gosto de pensar q poderia ser se o filho de uma pessoa rica sonhasse em ser faxineiro. Então pense: se você fosse faxineira, como vc gostaria de ser tratada? Da última vez eu deixei cerveja na geladeira!
P.s.: uma amiga tem uma faxineira regular e ofereceu cadastrar ela no MEI e pagar as mensalidades. MEI garante licença maternidade, invalidez, dentre outras coisas. #Ficaadica

domingo, 4 de junho de 2017

Respeitar a virgem tal e qual a puta

No episódio especial de Natal do Sense 8 (não estou sabendo lidar com o cancelamento da série), em conversa com o marido, a indiana Kala diz que ainda não fizeram sexo. No meio do tormento de saber que ele conversou sobre isso com sua mãe, o ator mexicano Lito e seu namorado Hernando estão no carro na porta da casa dos dois vendo o muro escrito "viado".

Pra quem não sabe o que é Sense 8, são oito pessoas conectadas mentalmente, ou seja, o que Lito vê e sente, Kala também presencia. Eles são uma pessoa só. Então quando Kala vê a parede pixada, invés de "viado" ela lê "virgem". E é também por isso que acredito em não se colocar no lugar da pessoa, isso é impossível. Mas em ouvir e respeitar. "Virgem" soa para Kala como "Viado" para Lito.

A algum tempo atrás em um grupo feminino de whats app surgiu o assunto sexualidade. Na época devíamos ser em torno de 20 mulheres no grupo. Quando percebi, várias confissões já haviam sido feitas, inclusive em relação a idade da primeira transa: 13, 14, 15 e ninguém se assustava ou comentava sobre a pouca idade de algumas de nós, afinal estávamos em um grupo seguro e acolhedor, um grupo sem julgamentos. Até que uma delas disse ter perdido a virgindade aos 23 anos e de repente pessoas que estavam mais preocupadas em falar das suas histórias interrogavam a "atrasada", a "inocente", a "santa", a "virgem". Como se ela não tivesse direito sobre o próprio corpo aos 23 como tantas outras tiveram aos 13. Ela não era gorda, nem "feia", nem preta, nem lésbica (a alguns anos atrás, a abertura social para a homossexualidade não era como é hoje, então poderia ter sido sim um motivo para ela ter "demorado"). Se ela passou nos "testes" pra conseguir um boy, por que então?

Isso me irritou, me irrita muito. Como vejo feministas maravilhosas defendendo a liberdade dos seus mamilos, a liberdade de sair e fazer sexo com quem quiser, onde quiser, com quantos quiser porque o "corpo é meu". Mas e o direito de não fazer? Saiba amiguinha, que o seu direito é exatamente igual ao dela. O patriarcado nos impõe tantos limites e regras que muitas vezes acreditamos que ser livre é ser contrária, mas esquecemos que somos seres altamente complexos. Gosto muito de ver isso em outra série da Netflix, "Dear White People". Porque mostra pessoas negras revolucionárias que querem esfregar na cara do mundo o racismo, mas mostra também pessoas negras de cabelos alisados que querem apenas sobreviver, passar pelo mundo sem tanta dor e tanta luta diária. E não é um direito das duas ser assim? Sem #RacistasNãoPassarão três vezes por dia, só existir...

Vi uma vez uma matéria de mulheres que se intitulavam feministas e cobriam a cabeça. Elas diziam que para elas era uma maneira de não aceitar os padrões sociais que objetificam nossos corpos. Você pode sair de topless e querer a mesma coisa. Pode até achar que seu modo de reagir é melhor que o dela. Mas vamos combinar que socialmente nenhum dos dois está sendo aceito, então qual a receitinha mágica? Pois é, não dá pra saber!

Uma amiga incrível tem 5 crianças, a mais velha deve ter 9 anos. O marido trabalha fora e ela não. Pra gringo ver, a profissão dela às vezes não passa de "prenha reprodutora" que faz todas as vontades do marido e acaba com a própria vida trocando fraldas. Passei alguns dias na casa convivendo com a família e posso testemunhar: Chloe ainda estava na barriga, mas as outras eram educadas, carinhosas, gentis, receptivas. O marido era pai, não só reprodutor. As crianças conhecem ele e ele está lá para elas. É uma casa super alegre, cheia de ajuda e ensinamentos. Depois da janta as crianças mais velhas recolheram o prato das mais novas e eu fiquei absolutamente apaixonada. Eu, que prezo tanto minha liberdade descobri que a liberdade dela é ter uma família. Sou livre quando posso dormir até tarde. Ela é livre quando decide fazer um piquenique divertido de última hora no quintal de casa. Eu sou uma, eles são 7. Somos livres e prisioneiras ao mesmo tempo, cada uma das suas escolhas e quem tem o direito de julgar alguma de nós?

Para a balança se equilibrar muitas vezes ela pende para o outro lado. Acho que não precisamos deixar isso acontecer assim. Ontem a puta era apedrejada na rua. Hoje riem da cara da virgem, debocham e interrogam. A puta não deixou de apanhar na rua tá?! Provavelmente apanha menos, mas colocar a virgem no lugar dela também não está certo. O feminismo não está aí para escolher quais mulheres vão ser livres, queremos todas, cada uma a sua maneira. E liberdade é poder escolher seja lá o que for. Já temos julgamentos demais no mundo para ainda ser crucificadas pelas pessoas que nos querem bem. Passei muitos anos aporrinhando a minha prima para virar professora de faculdade, escrever um livro, sei lá. Ela é uma gênia da pedagogia. Mas tudo o que ela fez foi para poder criar melhor suas/ seus filhis. Quem sou eu pra dizer que ela está errada? Gostaria que o mundo aprendesse com ela, mas ela tem o direito de levar aquilo apenas para a casa dela. E viva o respeito e a diversidade <3

Lira, junho/17

domingo, 21 de maio de 2017

Porque nego é otário e você é racista

Entre outubro de 2014 e março de 2015 fiz uma pesquisa de campo pra provar pra mim mesma que "neguim" não é sinônimo de "pessoal", "galera", "gente". É simples e descaradamente mais uma maneira de demonstrar racismo. Com o passar do tempo e das discussões que frequentemente me encontro, decido publicar meus resultados.

Pois bem, a pesquisa consistiu em anotar 100 ocorrências que ouvi em situações cotidianas, fossem de pessoas conhecidas ou não:

63 ocorrências negativas;
34 ocorrências neutras;
3 ocorrências positivas.

"Nego não sabe votar", "Na hora do vamo ver neguim some", "Nego quebra as bikes do Itaú", "Nego é bom pra criticar", "Fala de um jeito neguim briga, fala de outro neguim briga" e "Nego é burro" são apenas alguns dos exemplos que anotei durante minha pesquisa. Diferente da desculpa que a maioria das pessoas tem quando confrontadas no uso dessas expressões, elas não são utilizadas para definir um grupo de pessoas qualquer, mas sim para definir um grupo de pessoas a quem se quer atacar. E quem melhor que pessoas negras, não?

Nos Estados Unidos isso é muito claro quando vemos o uso da palavra "nigger", tão presente em filmes, séries e músicas. Assim, sabemos que é uma expressão utilizada entre pessoas negras e terminantemente proibida para pessoas brancas. O episódio 5 da série da Netflix "Dear White People" (Cara gente branca) mostra um pouco dessa relação. O que a série não diz é que historicamente "nigger" é uma expressão pejorativa como o nosso "neguim" que cada vez mais foi se tornando depreciativa até o ponto de se tornar uma grande ofensa. Donis de escravis, policiais, e todo jeito de gente branca com poder sobre pessoas negras utilizavam essa expressão para humilha-las. Hoje em dia negris utilizam a palavra entre elis mesmis, entre amiguis, como sinal de resistência. Aí, para is "humanistas" de plantão eu digo: Os EUA estão ANOOOOS LUZ na nossa frente na discussão racial, falem o que quiser sobre sua suposta segregação. Porque o Brasil é mestiço né?! Antes um inimigo exposto e de peito aberto do que o nosso silêncio tão velado, mutante e travestido de meritocracia em tantos níveis que a gente tende a acreditar que não existe. Nenhum doente se cura antes de perceber e admitir sua condição, para só então procurar um hospital. O Brasil é um doente terminal em negação. Terminal porque abusa, explora, nega trabalho, estupra e mata. Sim, mata dezenas de pessoas negras, apenas por serem negras, todos os dias.

Agora, um fator super interessante que encontrei durante a pesquisa foi que não anotei só a fala racista como is falantes racistas:

77 pessoas não negras
23 pessoas negras.

É fácil dizer que "é só uma expressão" quando não se trata de você, quando não é a sua história, a sua família, a sua pele quem define se algo é ruim ou não. Fiz a experiência de postar algumas vezes no facebook "branquim" dentro de um contexto qualquer imitando posts feitos por pessoas brancas que utilizaram "neguim". Surpresa não tive, mas talvez você se surpreenda ao saber que em NENHUMA das postagens com "neguim" alguém se manifestou em relação a questão racial e em TODAS as minhas postagens pelo menos uma pessoa comentou algo como "não é só branquim, neguim também", fora as várias mensagens privadas que recebi de pessoas brancas condenando meu "racismo reverso", mesmo que por vezes não viesse com esse nome. Dois pesos duas medidas.

Ainda, uma última observação sobre a pesquisa, das 23 pessoas negras citadas, TODAS são de classe média pra cima. Várias delas inclusive militantes do movimento negro. Não cheguei a fazer um levantamento de como essas pessoas se relacionam com a "expressão" mas das 3 ocorrências boas, 2 foram de pessoas negras. Me pergunto se não é mais uma forma de embranquecer. Como nossos cabelos alisados, nossos narizes de plástica, nossas maquiagens tons mais claros. Como nossos homens de cabeça raspada. Não é nenhum mistério que negris classe média são rodeados de gente branca por todos os lados em todos os contextos sociais, então sim, constantemente me pergunto se não é também uma maneira de se "misturar", como se fosse possível, como se a branquitude não tivesse sempre inventado e continuasse bolando maneiras de nos fazer sentir não merecedoris do que "é dela".

Um dia me encontrou, num restaurante chiquezinho, um homem negro da minha idade, o que significa que presenciou tanto quanto eu as mudanças nos últimos anos de Brasil. Ele se aproximou da minha mesa, me pediu licença e disse o quanto estava feliz de me ver ali. "Esses espaços também são nossos e me alegro cada vez que vejo que estamos ocupando. Ainda somos poucos mas resistimos."

Minha militância é para empoderar pessoas negras, mulheres. Por ser classe média, me encontro constantemente servindo uma função pedagógica em relação as maiorias brancas que me cercam, mas não devo explicações. A luta racial é uma luta de negris e não negris. Negris ocupando cada vez mais e não negris facilitando essa ocupação, reconhecendo privilégios, protagonismos e lugares de fala. Eu quero viver em um mundo onde a pessoa que bate não fique "ofendida" com os gritos da que apanha. Mas que largue o chicote, se envergonhe profundamente, sofra pelo seu erro e nunca mais repita. Porque ter que apanhar e explicar educadamente por que está errado bater ni coleguinha é pra mandar enforcar em praça pública! Que possamos ser humildes e nos reconhecer frutos de uma sociedade que nos seleciona e classifica por gênero, raça, orientação sexual, peso, funcionabilidade de corpos, dinheiro e tantos outros fatores. Somos humanos mas antes de começar a pregar nossas semelhanças, precisamos urgentemente apontar, reconhecer e respeitar nossas diferenças.

Lira
maio/17

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Sozinha

Depois de tanto tempo decidi reativar o blog, de uns anos pra cá aprendi a compor e a novidade das notas ofuscou o amor pelas palavras, minhas primeiras namoradas. Volto cabisbaixa, envergonhada, sem a certeza do perdão pelo meu abandono...

Eu sempre fui sozinha, tanto que temo já não saber ser de outro jeito.
4mil amigos na internet. Talvez uns 3 na vida real. Invejo quem não tem facebook, trocaria postagens por frases ditas na mesa de bar.

Passei o primeiro dia do ano e o dia das mães sozinha, torcendo pra me levar com você.
Passei minhas últimas doenças sozinha também, temendo ser encontrada no chão, vomitada talvez, desmaiada a sabe-se lá quanto tempo...

Escolhi a liberdade e a prisão de morar só. Escolhi um relacionamento perfeito quando está tudo bem, mas que evito quando não estou bem. Não posso ficar doente e abandonada. Sozinha eu sei ser.

Queria visitar pessoas, trocar segredos, falar da vida, mas não consigo. Eu sou trabalho. Minhas amizades são as ideias que troco com músicos nos intervalos dos shows, são as piadas que ouço nos ensaios.

Saio sozinha, almoço sozinha, danço sozinha, cozinho sozinha. Ou isso ou nada.
Eu sempre fui sozinha, tanto que já não sei ser de outro jeito.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Perdão Cristiane


Hoje li um texto lindo no blog sobre dor. Hoje pensei no discurso bombástico da atriz negra Lupita Nyong'o, vencedora do último oscar na categoria de melhor atriz, em relação a sua beleza. Hoje pensei em escrever, uma vez que eu mesma nunca pensei em acordar com a pele mais clara porque, afinal, eu sou morena né?! E foi nisso que eu cresci acreditando.

Sempre parava na frente do espelho com aqueles cachos penteados a seco (ô dó! rss), amarrava num rabo de cavalo baixo e saía com ele assim, num capacete pseudo liso e uma vassoura acoplada… Eu era, sem dúvida  a menina mais feia da escola, mas pelo menos não era preta.  

Cristiane o nome dela, a “nega fedida” que todos os dias era empurrada para o meio do pátio da escola onde arrancavam seu prendedor de cabelo (ou de identidade, como queiram) e a deixavam desesperada segurando as pontas, alisando o cabelo com as mãos e gritando “Para! Para!”. E em segundos ela estava no meio da roda de meninos... Eram chutes, murros e pontapés que ela levava enquanto o coro musicava xingamentos com palmas. Ela bem dava uns murros também, distribuía uns chutes e xingava de volta. Era marrenta a menina de 11 anos que estudava na minha escola.

Eu gostaria de dizer que defendi a Cristiane, que sentei com ela no recreio, que dei as costas para um monte de meninos e meninas que ridicularizavam ela. Eu gostaria, mas não posso. Confesso que chorei escrevendo esse texto. Que tipo de monstro era eu, na sexta série, que nunca foi capaz sequer de sentir pena do que aquela menina enfrentava todos os dias? Nunca xinguei nem bati, aliás evitava inclusive assistir. Mas a omissão é igual ou pior que os ataques, eles pelo menos se posicionavam. E eu?

Nessas horas x leitorx pode se perguntar: “E onde estava a direção desse colégio?” Pois é... Onde estava? Sendo a referida escola pública um quadrado com as portas das salas em três das paredes e a direção na quarta. O recreio, a gente passava no meio do quadrado, a sala dos professores era ao lado da direção e os gritos eram altos o recreio inteiro. Vez por outra vinha a coordenadora dar uns berros, distribuir umas suspensões, advertências para os meninos que agrediam Cristiane fisicamente, mas só. Cristiane era o motivo de eu chegar em casa todos os dias e agradecer a Deus pela minha pele não ser tão escura quanto a dela.

Nadejda era a menina nova, chegou na sétima série, um corpo esguio, pele igual ou mais escura que a da Cristiane, nariz bem chato e o pouco cabelo, num corte quadrado feito na máquina, bem crespo. Da primeira vez que a vi, tive pena da certeza que ela seria conduzida pelo mesmo rumo da Cristiane. Nadejda era doce, não irritada e grossa como a outra, mas tinha um detalhe que eu ainda não sabia e que viria a fazer toda a diferença: Nadejda era angolana. Seu sotaque, suas histórias e sua leveza com a vida me fizeram pensar que não tinha nada a ver com o fato da Cristiane ser preta, ela era chata e mais feia do que eu, se é que isso era possível. Pelo menos eu me achava legal, inteligente, pelo menos eu tinha amigos, pelo menos eu não era ela. E pela primeira vez eu tive alguma autoestima ao perceber que minha vida podia ser bem pior.

Cristiane carregava na cara preta de 11, 12, 13 anos de idade todo o peso do racismo arraigado da nossa cultura. E ela, no seu início de adolescência, encarava de frente, de cabeça erguida e peitava mesmo, quem fosse! E gritava mesmo e xingava mesmo. Eu a vi chorar uma vez, foi bem pior. A gozação triplicou com as lágrimas da menina sentada no chão segurando os cabelos. Nadejda era recém chegada de um país africano, um país negro, ela tinha a leveza dos inocentes. Mas não sei dizer se é possível se viver mais feliz assim...


Aos 17 anos conheci um menino maravilhoso, Hugo parecia um ursão de pelúcia e me disse que eu tinha um sorriso lindo. Mas ele falou tão entusiasmado e repetiu tantas vezes para mim e para quem mais quisesse ouvir, que eu acreditei. Que outras pessoas acreditaram. Que todo mundo passou a comentar. Foi aí que troquei meu primeiro beijo... E eu, bem contente, tatuei a droga do sorriso na cara. Empunhada da única arma que tinha, comecei a perder a pena de mim mesma, afinal eu podia me esconder atrás daquele sorriso e fingir que era linda.

Pega meus documentos pra ver, isso é desde antes das pessoas saberem que podia: carteira de motorista, de estudante, da ordem dos músicos, passaporte, todas as minhas fotos são sorrindo e rezando pra ninguém descobrir que, atrás daquela armadura de dentes eu era verdade muito feia. Foto séria? De perfil então? NUNCA! Eu tenho mais dentes do que minha boca é capaz de suportar e aos 14 anos a dentista me disse que “esteticamente não funciona”. Só que eu nunca tive cárie, não ia perder quatro dentes a toa, feia eu já estava acostumada a ser.

Hoje eu lembrei do discurso da Lupita sobre se descobrir bonita e pensei na minha vida... Eu que tive que descobrir que sou negra, preta. Porque o desespero pelo embranquecimento é tanto que só ouvia do meu pai que estava “penteadinha” quando o cabelo estava preso, da dentista, que minha dentição protuberante “esteticamente não funciona” e... E a culpa? É de quem afinal? Meu paizinho querido, preto do nariz chato e do cabelo crespo, engraxate e vendedor de bala na infância, morreu dizendo que sofreu racismo talvez uma ou duas vezes na vida. Como se isso fosse possível.

O sistema é tão cruel e velado que a gente é convencido a acreditar que é feix, burrx, fedidx... Nunca que é negrx. Eu sou a menina “bem moreninha”, aquela que já disse “não sou morena, sou negra” e teve que ouvir “você não é negra, você é linda”. Nunca é racismo, afinal no Brasil isso nem existe.
Quando se começa a entender os porquês, queremos encontrar um culpado e é muito fácil entender que a culpa é do sistema, da maneira como a história é contada, pela ótica de quem é contada e sim! Tudo isso é a mais ardente verdade! Mas no fundo, pra mim pouco importa quem inventou a discórdia porque quem vai ter que desinventar somos eu e você, pensando, problematizando, denunciando. Eu sou, e sempre fui, linda. Que a sociedade aprenda a lidar com isso e desate esse e tantos outros nós de mais de 500 anos de idade. Nós pretos estamos de olho.

Hoje, o meu orgulho é sair na foto séria, de perfil, evidenciando todos os traços que mãe África gentilmente me concedeu, empunhando a espada com os dizeres cravados:

“Não sou livre enquanto uma pessoa negra permanecer acorrentada” Audre Lorde

Perdão Cristiane.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Contra o aborto, a favor da descriminalização

Sempre evitei falar desse tema porque é um assunto muito polêmico dentro da minha própria cabeça mas acho que a essas alturas as ideias estão se organizando com calma e posso dizer que hoje sou a favor da descriminalização do aborto. Me explico:

Sou CONTRA o aborto, sempre fui, por achar que é um ser vivo e que isso é uma forma de assassinato. Sempre pensei que descriminalizar faria com que a ideia do aborto se tornasse normal e aumentaria drasticamente o número de mulheres abortando. Hoje penso diferente. Descobri que conheço um bocado de gente que já abortou... quantas mulheres deixaram de abortar simplesmente porque é crime? Não sei, talvez 5, 10% das pensaram em fazer... Agora, quantas mulheres morreram porque é crime? 50, 60%? Não tenho noção desses números, mas tenho certeza que não estou tão errada assim... agora, será que é justo sentencia-las a morte porque são querem ser mães?

Ok, nesse momento já estou ouvindo a galera do "que fechasse as pernas", e entendo o argumento da "consequência de uma escolha", que todas sabiam que era uma possibilidade quando fizeram sexo. (Nem vou entrar no mérito da "punição por fazer sexo" e muito menos no do "mas iuzomi que sempre abortaram quando abandonam a criança e não são punidos?" Estou seguindo um raciocínio bem limitado mesmo). Mas, na boa, sério que ela precisa morrer porque abortou? Simples assim? Comparemos com assassinato então, no Brasil não existe pena de morte nem pra assassino ou estuprador! Ou, que a mulher não morra mas, ficar cheia de sequelas? Ou mesmo que seja a branca, a rica que teve grana pra clínica, que entrou escondida, não ficou internada nem antes nem depois porque, afinal é crime né?! Então entra, faz o que tem que fazer e sai o mais rápido possível antes que dê problema! Não teve nenhum acompanhamento psicológico e vai talvez ficar louca o resto da vida por conta de uma decisão ruim? Sim, ainda acho que é uma decisão ruim, ainda acho que é uma vida tirada etc, etc, etc... mas e aí? É uma vida que dependeria 500% da vida de outra pessoa pelo menos pelos próximos 18 anos, então não pode simplesmente ser considerado assassinato...

Hoje penso que a maioria esmagadora das mulheres que querem abortar, vão abortar, sendo crime ou não. A diferença é só se ela vai morrer e/ou ter traumas físicos e psicológicos pelo resto da vida pelas condições em que esse aborto foi feito. Agora, de repente, legalizando, com um acompanhamento psicológico ajudando a mulher a entender como chegou a aquela decisão e respeitando a vontade dela, seja qual for, de repente formulando um programa de apoio financeiro ou fazendo ajustes no próprio bolsa família para mães solteiras da periferia que querem abortar simplesmente porque não vão ter condições de sustentar a si mesmas e a criança, em fim! Estou jogando ideias sem muita reflexão, o lance é mais que talvez só o fato de dar humanidade a essas mulheres, sou até capaz de acreditar que o índice de aborto diminuía... porque seria uma decisão baseada em reflexão e acompanhamento de profissionais. Conheço casos em que o pai teria criado a criança sozinho mas a mãe decidiu abortar. De repente a “calma”que uma descriminalização bem estruturada traria, possibilitaria que os dois entrassem em um acordo onde a mãe seguisse sua vida e deixasse o pai solteiro ou virasse "mãe quando dá" (não sejamos hipócritas né?! Quantos pais são assim?).


Sim, ainda sou contra o aborto, mas também sou contra fumar, sou contra música arrocha e contra acordar cedo. Nem por isso acho que as pessoas devam ser condenadas a condições tão péssimas de vida. Ah! Também sou cristã e me considero uma pessoa religiosa, inclusive por isso também acredito no livre arbítrio. Tenho problemas com a maioria dos textos sobre legalização do aborto, não compartilho e não me vejo indo a protestos nem segurando faixas com os dizeres “o corpo é meu” ou coisas do tipo. Mas sou mulher, negra e feminista e sei que pra muita gente essa última palavra (feminista), vai desmerecer um bocado meu texto. Essas pessoas eu convido a procurar saber um pouco mais sobre o que é de fato o feminismo, eu mesma já achei que eram mulheres que queriam ser homens rss... e na verdade é muito mais simples, hoje tenho pra mim que é apenas o direito de ser tratada como ser humano. :) 

Mais uma vez: sou contra o aborto, qualquer amiga minha que vier grávida com ideias do tipo, com certeza tentarei dissuadi-la do contrário. Mas o fato é que, no fim das contas, não tenho o direito de escolher por elas. Ponto.

sábado, 2 de agosto de 2014

Porque sentamos como mocinhas: de perna aberta no meio fio ou cruzada e de salto à mesa

O bullying começa quando x médicx atesta: é menina!
"Essa vai dar trabalho!" "É isso aí paizão, pagar os pecados hein?!" "Ixi... se deu mal"

E só continua:
"Você não pode jogar futebol com a gente, você é menina!"
"Assim não, senta que nem mocinha! Isso..."
"Isso é brinquedo de menino! Você tem as suas bonecas"
"Hoje nós vamos bordar ursinhos na toalha! E os meninos? Estão mexendo com uns fios lá, descobrindo como acender uma lâmpada." O.o

Muito cedo na vida eu descobri que queria ser menino. Mas pra mim já tinha dado ruim, já tinha nascido menina e nem nunca tinha ouvido falar de transexualidade.

"Mas ela é menina!" "Cara, ela é mais macho que você e eu juntos!"
"Mas ela vai dar prejuízo no rodízio" "Ela é menina mas come que nem um cara!"
"Ela não vai dar conta de carregar isso" "Você que pensa, você não viu ela e o Marciano semana passada na queda de braço, ficaram lá quase um minuto e ninguém saiu do lugar"

De boné, bermuda e tênis de skatista eu tinha conquistado meu espaço, meu respeito. Menina porque não podia evitar, mas ouvia com frequência "às vezes até me esqueço que você é menina". O que, até chegar a época de namorar, era motivo pra bater no peito de orgulho, mas isso é outra história.

"Prefiro ter amigos homens, mulher é muito complicada"
"Homem quando fica com raiva, fala na sua cara e pronto, mulher fica esperando até explodir por bobagem, não aguento não."
"Eu tenho dois irmãos, não sei lidar com mulher"
"É muita fofoca, prefiro sair com os meninos"

Foram frases que passaram a sair livremente da minha boca uma vez que eu mesma era mulher só pelo azar de ter nascido uma, mas "era quase um cara". É impressionante o sucesso que a cultura machista tem em pregar: mulheres são fracas. Ponto. Cavalheirismos e gentilezas se misturam no imaginário coletivo e de repente todo mundo reclama das feministas. Não aceito cavalheirismos porque sou tão capaz quanto. Aceito gentilezas porque são formas de se importar e demonstrar amor.

"Mulher é ciumenta". "O cara não pode sair pra beber com os amigos que a mulher fica enchendo o saco." "Que delícia de comida! Já pode casar!". "Profissão de mulher é professora, enfermeira, ginecologista". "Mexi mesmo com a mulher de saia curta na rua, o que eu posso fazer? Eu sou homem!" "Nai, vamos ter uma conversa aqui, de homem pra homem".


Mas um dia, o dia chega né?! Nãaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaoooooooooooooooooooo!!!!

"E a verdade vos libertará"

Não sou um menino, não faço e nem nunca fiz as coisas como um menino! Oxe! Dei trabalho para os meus pais tanto quanto meus irmãos. ADORO trabalhar com mulher! Mulher não é ciumenta, pessoas são ciumentas! A mina sai com as amigas e chega tarde e o cara também fica enchendo o saco! Eu posso casar quando eu quiser casar, sabendo cozinhar ou não. Assim como vou ter filho quando e se quiser. Ouvi esses dias que mulher que casa e não quer ser mãe vai perder o marido. Aposto que ele não descobriu isso na hora de trocar as alianças, então vá meu filho, já vai tarde! Profissão de mulher é a que ela quiser que seja. Inclusive mãe e/ou dona de casa. Você mexeu com a mulher de saia curta na rua porque é idiota, só por isso. E a minha conversa é de mulher pra homem ou de mulher pra mulher, se quiser!

Tenho descoberto Lauras, Fernandas, Natálias, Letícias, Lucianas, Thanises, Paulas, Isabelles, Mírians, Ninas, Marianas, Lias, Anas... pessoas lindas, responsáveis. Trabalhar com homem NÃO é melhor que trabalhar com mulher! Nunca foi! É diferente, porque somos diferentes. Mas tenho aprendido que mulheres são melhores para trabalhar por dois motivos principais:
1. A gente precisa se ralar tão mais pra ter as mesmas oportunidades que quando tem está anos luz a frente de vários outros caras. Dois grandes exemplos disso na minha vida são a Paula Zimbres e a Thanise Silva. Duas instrumentistas, musicistas que brigam/conquistam um espaço num universo machista e desproporcional. São respeitadas porque são BOAS. E estão em um nível bem acima de vários outros homens que ocupam os mesmos espaços. O respeito devia ser gratuito, mas como não é, elas dão na sua cara se precisar. 
2. Eu sou mulher. O que não significa que homens não possam ser completamente felizes trabalhando com mulheres também. A gente só tem que dar oportunidades.

Algumas pessoas são difíceis de trabalhar e seriam sendo homens, mulheres, homo, hétero, trans, cis, centauros ou sereias. Simples assim. E tem sido pra mim extremamente libertador o recém adquirido orgulho de dizer:

- Eu sento como uma mocinha. Seja de perna aberta no meio fio ou cruzada e de salto alto à mesa.
- Eu dirijo que nem mulherzinha. Seja fazendo uma baliza perfeita no 4x4 da minha mãe ou apanhando pra dar ré em linha reta.
- Eu falo que nem uma mocinha. Na hora de xingar e de amar.
- Tenho unhas de menina. 5min depois de sair do salão e depois do fim de semana na chácara.
- Não bebo que nem mulherzinha. Simplesmente porque não bebo.
- Choro que nem mulherzinha. De raiva, de dor, de alegria, de saudade... E sim. Eu choro. Pouco, mas não tenho vergonha das minhas lágrimas quando querem cair.
- Sou forte como uma mina.
- Como que nem uma mina.
- Não sou "macha", sou fêmea mesmo.
E pra finalizar: não sou grande nem má, mas sou forte e feminista!