Entre outubro de 2014 e março de 2015 fiz uma pesquisa de campo pra provar pra mim mesma que "neguim" não é sinônimo de "pessoal", "galera", "gente". É simples e descaradamente mais uma maneira de demonstrar racismo. Com o passar do tempo e das discussões que frequentemente me encontro, decido publicar meus resultados.
Pois bem, a pesquisa consistiu em anotar 100 ocorrências que ouvi em situações cotidianas, fossem de pessoas conhecidas ou não:
63 ocorrências negativas;
34 ocorrências neutras;
3 ocorrências positivas.
"Nego não sabe votar", "Na hora do vamo ver neguim some", "Nego quebra as bikes do Itaú", "Nego é bom pra criticar", "Fala de um jeito neguim briga, fala de outro neguim briga" e "Nego é burro" são apenas alguns dos exemplos que anotei durante minha pesquisa. Diferente da desculpa que a maioria das pessoas tem quando confrontadas no uso dessas expressões, elas não são utilizadas para definir um grupo de pessoas qualquer, mas sim para definir um grupo de pessoas a quem se quer atacar. E quem melhor que pessoas negras, não?
Nos Estados Unidos isso é muito claro quando vemos o uso da palavra "nigger", tão presente em filmes, séries e músicas. Assim, sabemos que é uma expressão utilizada entre pessoas negras e terminantemente proibida para pessoas brancas. O episódio 5 da série da Netflix "Dear White People" (Cara gente branca) mostra um pouco dessa relação. O que a série não diz é que historicamente "nigger" é uma expressão pejorativa como o nosso "neguim" que cada vez mais foi se tornando depreciativa até o ponto de se tornar uma grande ofensa. Donis de escravis, policiais, e todo jeito de gente branca com poder sobre pessoas negras utilizavam essa expressão para humilha-las. Hoje em dia negris utilizam a palavra entre elis mesmis, entre amiguis, como sinal de resistência. Aí, para is "humanistas" de plantão eu digo: Os EUA estão ANOOOOS LUZ na nossa frente na discussão racial, falem o que quiser sobre sua suposta segregação. Porque o Brasil é mestiço né?! Antes um inimigo exposto e de peito aberto do que o nosso silêncio tão velado, mutante e travestido de meritocracia em tantos níveis que a gente tende a acreditar que não existe. Nenhum doente se cura antes de perceber e admitir sua condição, para só então procurar um hospital. O Brasil é um doente terminal em negação. Terminal porque abusa, explora, nega trabalho, estupra e mata. Sim, mata dezenas de pessoas negras, apenas por serem negras, todos os dias.
Agora, um fator super interessante que encontrei durante a pesquisa foi que não anotei só a fala racista como is falantes racistas:
77 pessoas não negras
23 pessoas negras.
É fácil dizer que "é só uma expressão" quando não se trata de você, quando não é a sua história, a sua família, a sua pele quem define se algo é ruim ou não. Fiz a experiência de postar algumas vezes no facebook "branquim" dentro de um contexto qualquer imitando posts feitos por pessoas brancas que utilizaram "neguim". Surpresa não tive, mas talvez você se surpreenda ao saber que em NENHUMA das postagens com "neguim" alguém se manifestou em relação a questão racial e em TODAS as minhas postagens pelo menos uma pessoa comentou algo como "não é só branquim, neguim também", fora as várias mensagens privadas que recebi de pessoas brancas condenando meu "racismo reverso", mesmo que por vezes não viesse com esse nome. Dois pesos duas medidas.
Ainda, uma última observação sobre a pesquisa, das 23 pessoas negras citadas, TODAS são de classe média pra cima. Várias delas inclusive militantes do movimento negro. Não cheguei a fazer um levantamento de como essas pessoas se relacionam com a "expressão" mas das 3 ocorrências boas, 2 foram de pessoas negras. Me pergunto se não é mais uma forma de embranquecer. Como nossos cabelos alisados, nossos narizes de plástica, nossas maquiagens tons mais claros. Como nossos homens de cabeça raspada. Não é nenhum mistério que negris classe média são rodeados de gente branca por todos os lados em todos os contextos sociais, então sim, constantemente me pergunto se não é também uma maneira de se "misturar", como se fosse possível, como se a branquitude não tivesse sempre inventado e continuasse bolando maneiras de nos fazer sentir não merecedoris do que "é dela".
Um dia me encontrou, num restaurante chiquezinho, um homem negro da minha idade, o que significa que presenciou tanto quanto eu as mudanças nos últimos anos de Brasil. Ele se aproximou da minha mesa, me pediu licença e disse o quanto estava feliz de me ver ali. "Esses espaços também são nossos e me alegro cada vez que vejo que estamos ocupando. Ainda somos poucos mas resistimos."
Minha militância é para empoderar pessoas negras, mulheres. Por ser classe média, me encontro constantemente servindo uma função pedagógica em relação as maiorias brancas que me cercam, mas não devo explicações. A luta racial é uma luta de negris e não negris. Negris ocupando cada vez mais e não negris facilitando essa ocupação, reconhecendo privilégios, protagonismos e lugares de fala. Eu quero viver em um mundo onde a pessoa que bate não fique "ofendida" com os gritos da que apanha. Mas que largue o chicote, se envergonhe profundamente, sofra pelo seu erro e nunca mais repita. Porque ter que apanhar e explicar educadamente por que está errado bater ni coleguinha é pra mandar enforcar em praça pública! Que possamos ser humildes e nos reconhecer frutos de uma sociedade que nos seleciona e classifica por gênero, raça, orientação sexual, peso, funcionabilidade de corpos, dinheiro e tantos outros fatores. Somos humanos mas antes de começar a pregar nossas semelhanças, precisamos urgentemente apontar, reconhecer e respeitar nossas diferenças.
Lira
maio/17