sábado, 2 de agosto de 2014

Porque sentamos como mocinhas: de perna aberta no meio fio ou cruzada e de salto à mesa

O bullying começa quando x médicx atesta: é menina!
"Essa vai dar trabalho!" "É isso aí paizão, pagar os pecados hein?!" "Ixi... se deu mal"

E só continua:
"Você não pode jogar futebol com a gente, você é menina!"
"Assim não, senta que nem mocinha! Isso..."
"Isso é brinquedo de menino! Você tem as suas bonecas"
"Hoje nós vamos bordar ursinhos na toalha! E os meninos? Estão mexendo com uns fios lá, descobrindo como acender uma lâmpada." O.o

Muito cedo na vida eu descobri que queria ser menino. Mas pra mim já tinha dado ruim, já tinha nascido menina e nem nunca tinha ouvido falar de transexualidade.

"Mas ela é menina!" "Cara, ela é mais macho que você e eu juntos!"
"Mas ela vai dar prejuízo no rodízio" "Ela é menina mas come que nem um cara!"
"Ela não vai dar conta de carregar isso" "Você que pensa, você não viu ela e o Marciano semana passada na queda de braço, ficaram lá quase um minuto e ninguém saiu do lugar"

De boné, bermuda e tênis de skatista eu tinha conquistado meu espaço, meu respeito. Menina porque não podia evitar, mas ouvia com frequência "às vezes até me esqueço que você é menina". O que, até chegar a época de namorar, era motivo pra bater no peito de orgulho, mas isso é outra história.

"Prefiro ter amigos homens, mulher é muito complicada"
"Homem quando fica com raiva, fala na sua cara e pronto, mulher fica esperando até explodir por bobagem, não aguento não."
"Eu tenho dois irmãos, não sei lidar com mulher"
"É muita fofoca, prefiro sair com os meninos"

Foram frases que passaram a sair livremente da minha boca uma vez que eu mesma era mulher só pelo azar de ter nascido uma, mas "era quase um cara". É impressionante o sucesso que a cultura machista tem em pregar: mulheres são fracas. Ponto. Cavalheirismos e gentilezas se misturam no imaginário coletivo e de repente todo mundo reclama das feministas. Não aceito cavalheirismos porque sou tão capaz quanto. Aceito gentilezas porque são formas de se importar e demonstrar amor.

"Mulher é ciumenta". "O cara não pode sair pra beber com os amigos que a mulher fica enchendo o saco." "Que delícia de comida! Já pode casar!". "Profissão de mulher é professora, enfermeira, ginecologista". "Mexi mesmo com a mulher de saia curta na rua, o que eu posso fazer? Eu sou homem!" "Nai, vamos ter uma conversa aqui, de homem pra homem".


Mas um dia, o dia chega né?! Nãaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaoooooooooooooooooooo!!!!

"E a verdade vos libertará"

Não sou um menino, não faço e nem nunca fiz as coisas como um menino! Oxe! Dei trabalho para os meus pais tanto quanto meus irmãos. ADORO trabalhar com mulher! Mulher não é ciumenta, pessoas são ciumentas! A mina sai com as amigas e chega tarde e o cara também fica enchendo o saco! Eu posso casar quando eu quiser casar, sabendo cozinhar ou não. Assim como vou ter filho quando e se quiser. Ouvi esses dias que mulher que casa e não quer ser mãe vai perder o marido. Aposto que ele não descobriu isso na hora de trocar as alianças, então vá meu filho, já vai tarde! Profissão de mulher é a que ela quiser que seja. Inclusive mãe e/ou dona de casa. Você mexeu com a mulher de saia curta na rua porque é idiota, só por isso. E a minha conversa é de mulher pra homem ou de mulher pra mulher, se quiser!

Tenho descoberto Lauras, Fernandas, Natálias, Letícias, Lucianas, Thanises, Paulas, Isabelles, Mírians, Ninas, Marianas, Lias, Anas... pessoas lindas, responsáveis. Trabalhar com homem NÃO é melhor que trabalhar com mulher! Nunca foi! É diferente, porque somos diferentes. Mas tenho aprendido que mulheres são melhores para trabalhar por dois motivos principais:
1. A gente precisa se ralar tão mais pra ter as mesmas oportunidades que quando tem está anos luz a frente de vários outros caras. Dois grandes exemplos disso na minha vida são a Paula Zimbres e a Thanise Silva. Duas instrumentistas, musicistas que brigam/conquistam um espaço num universo machista e desproporcional. São respeitadas porque são BOAS. E estão em um nível bem acima de vários outros homens que ocupam os mesmos espaços. O respeito devia ser gratuito, mas como não é, elas dão na sua cara se precisar. 
2. Eu sou mulher. O que não significa que homens não possam ser completamente felizes trabalhando com mulheres também. A gente só tem que dar oportunidades.

Algumas pessoas são difíceis de trabalhar e seriam sendo homens, mulheres, homo, hétero, trans, cis, centauros ou sereias. Simples assim. E tem sido pra mim extremamente libertador o recém adquirido orgulho de dizer:

- Eu sento como uma mocinha. Seja de perna aberta no meio fio ou cruzada e de salto alto à mesa.
- Eu dirijo que nem mulherzinha. Seja fazendo uma baliza perfeita no 4x4 da minha mãe ou apanhando pra dar ré em linha reta.
- Eu falo que nem uma mocinha. Na hora de xingar e de amar.
- Tenho unhas de menina. 5min depois de sair do salão e depois do fim de semana na chácara.
- Não bebo que nem mulherzinha. Simplesmente porque não bebo.
- Choro que nem mulherzinha. De raiva, de dor, de alegria, de saudade... E sim. Eu choro. Pouco, mas não tenho vergonha das minhas lágrimas quando querem cair.
- Sou forte como uma mina.
- Como que nem uma mina.
- Não sou "macha", sou fêmea mesmo.
E pra finalizar: não sou grande nem má, mas sou forte e feminista!